O indivíduo moderno vem, aos poucos, se libertando do peso de costumes, crenças e preconceitos. Ele é cada vez mais livre para decidir o seu destino. No entanto, quanto mais independente, mais se sente esmagado pelas conseqüências dos seus atos. A saída adotada para tentar escapar desse paradoxo, segundo Pascal Bruckner, tem sido o individualismo.
O autor chama de inocência a doença do individualismo que consiste na tentativa de gozar dos benefícios da liberdade sem sofrer nenhum dos seus inconvenientes. Ela desenvolve-se em duas direções: o infantilismo e a vitimização, duas maneiras de fugir da dificuldade de ser.
Na primeira, a inocência é considerada paródia da despreocupação e da ignorância da infância, culminando na imagem do eterno imaturo. Na segunda, é sinônimo de angelismo, ou seja, ausência de culpa, incapacidade de cometer o mal.
O infantilismo combina a busca de segurança com uma avidez ilimitada. Quanto à vitimização, é a tendência do cidadão mimadão do paraíso capitalista de se colocar como povo perseguido. "Ninguém mais deseja ser considerado responsável, cada um aspira a ser visto como um infeliz, mesmo que não atravesse nenhuma provação especial", constata o autor.
O que é válido para as pessoas, também serve para as nações. Essa postura identificada por Bruckner desenvolve-se no tecido social como uma epidemia, comanda a retórica dos políticos e influi em suas ações. Assim, transforma em vítima desde o pedestre atropelado ao atravessar a rua com o sinal vermelho, até os sérvios, que agridem a Bósnia por terem sido perseguidos durante a Segunda Guerra Mundial.
Não é a primeira vez que Pascal Bruckner se dedica a analisar a pesada consciência ocidental. Em seu livro anterior, ele já procurava definir o terceiro-mundismo. Aqui, no entanto, coloca em questão a própria manutenção da democracia na Europa Ocidental, onde a maioria dos cidadãos aspira ao status de vítima, abafando a voz dos verdadeiros deserdados.