Entretecido a ferro e fogo com as descrições precisas e as impressões severas de uma personagem em crise, Lesão corporal é um livro sobre a mortalidade – de um amor, de uma ilusão e de lampejos de esperança – e a necessidade de se desfazer velhos nós, relações e certezas puídas pelo tempo. Escrito em 1981, Margaret Atwood produz um romance psicológico com o ritmo de thriller de suspense para acompanhar a incisão profunda, que atravessa corpo e alma de Rennie, protagonista da história.
Jornalista freelancer, especialista em matérias leves sobre tendências e modismos que muitas vezes inventava e outras vezes até se tornavam verdades, Rennie se considerava uma especialista em superfícies e aparências até se deparar com um fato real e iminente: um câncer em estágio avançado que a obrigaria a perder parte do seio, a auto-estima e o aparente controle sobre o seu próprio corpo e sobre a vida. De repente, ela se vê como parte das estimativas que se habituara a usar para ilustrar suas matérias.
Casada com Jack, designer de etiquetas acostumado a colocar rótulos em caixas e contêiners, a classificar objetos e contextualizar sentimentos, Rennie parecia satisfeita em fazer parte do pacote completo idealizado pelo amante. Da cor das paredes à decoração do quarto do casal, das roupas que Rennie vestia às posições e fantasias do ato sexual, tudo era planejado por ele. A relação acaba com a descoberta da doença de Rennie e aquilo que ela chama de ‘beijo da morte’, ou a sensação de perenidade do corpo.
Sem saber o que fazer com o futuro que se anuncia sombrio, perdida diante de um passado que insiste em retornar como fantasma constantemente, Rennie decide tirar férias de si, do câncer e do relacionamento desfeito para escrever uma reportagem de turismo no Caribe. Na aparentemente paradisíaca ilha St. Antoine, no entanto, as relações sociais se revelam apodrecidas por valores falaciosos; a cena idílica emerge borrada, frágil demais para se sustentar com um olhar mais atento.
"Não existem mocinhos e bandidos, nada com que você possa contar, não há nada que ainda seja permanente, há muita improvisação", afirma o americano Paul, dono de um barco pesqueiro que se revela contrabandista de armas e abastece o grupo de políticos insurgentes local. Rennie dorme com Paul, ex-amante de Lora, canadense que evitou um estupro atravessando o estômago do padrasto com um abridor de latas; ela conhece o Dr. Minnow, candidato à presidência das primeiras eleições livres do pequeno país caribenho, para quem sangue é sinônimo de notícias e jornalistas internacionais o único vínculo com uma moralidade externa.
A apatia e a cegueira da protagonista Rennie atordoam e incomodam o leitor. Aprisionada por seu próprio drama pessoal, ela não consegue vislumbrar a revolução que se forma diante de seus olhos, nem prever a inevitabilidade de um golpe político armado. Rennie se aborrece por não conseguir escrever sobre a ilha paradisíaca que desejara encontrar. Arrastada pelos acontecimentos que não consegue entender ou interpretar, Rennie se vê presa à teia de intrigas do local.
Margaret Atwood surpreende ao mudar o tom e a forma da narrativa e fazê-la ganhar viés político ao abordar a crise numa remota ilha do Caribe, o golpe de Estado e as artimanhas do jogo político. O livro se torna, portanto, uma critica ao individualismo e à perda de valores coletivos. A protagonista de Lesão corporal resiste até o fim para não envolver com as questões sociais. Ela assiste de camarote ao golpe; ela se surpreende com os verdadeiros papéis de cada um dos atores envolvidos na cena; ela acaba isolada numa ilha sem luz ou transporte, sem vínculo com o mundo exterior, é presa, perde os documentos e, só assim, recupera e refaz a sua identidade.
Com maestria, Margaret Atwood consegue se distanciar moralmente da personagem e, ao mesmo tempo, mergulhar em suas particularidades e idiossincrasias. Simultaneamente dramático, sedutor e engraçado, Lesão corporal é marcado pelo microscópico poder de observação de Atwood, precisa e sensível em sua crítica social. A um tempo natural e sofisticadamente elaborada, a prosa de Atwood é capaz de transformar detalhes em impressionantes metáforas, repletas de humor vigoroso e requintado.