Considerado uma das maiores revelações da literatura em língua inglesa, Dave Eggers chega ao Brasil com o lançamento pela Rocco de Uma comovente obra de espantoso talento, livro de estréia que o transformou em fenômeno editorial na Europa e nos Estados Unidos. Fundador da revista Might, ex-apresentador da MTV e cronista da cena indie da música americana, Eggers já tinha integrado a coletânea de contos Falando com o anjo, coordenada por Nick Hornby (de Alta fidelidade) e também editada pela Rocco.
Autobiográfico, Uma comovente obra de espantoso talento narra a sucessão de acontecimentos trágicos que tomam conta da vida de Eggers quando ele é um jovem de apenas 22 anos. Os pais morrem num intervalo de apenas cinco semanas — a mãe depois de uma longa agonia — e ele é obrigado a amadurecer em tempo recorde. Recém-saído da universidade, tomado pelas angústias típicas dos jovens desta idade, ele resolve sair em busca de uma vida nova viajando pela Costa Oeste dos Estados Unidos. Reúne tudo o que tem no carro e, junto com o irmão Toph, de apenas 8 anos, parte rumo a San Francisco.
Muito jovem para se tornar pai, muito velho para continuar a agir como criança, Eggers transforma seu livro de memórias numa crônica sobre como a dor, por maior que seja, também pode ser uma porta para o amadurecimento e o autoconhecimento. A originalidade do escritor, no entanto, é fazer isso com um estilo que evita o tempo inteiro a auto-indulgência e o melodrama. Consciente, irônico e em muitos momentos autodepreciativo, Uma comovente obra de espantoso talento transforma o humor inteligente numa forma de redenção da tragédia. E não poupa nem o próprio autor nem os parentes mais próximos de críticas bastante ácidas. Um dos personagens mais atacados por Eggers é sua irmã mais velha, Beth, que rompeu com ele depois que o livro foi lançado e escreveu para o site de seu fã-clube dizendo que não suportava mais "seu momento LaToya Jackson", numa referência à irmã problemática e voluntariosa de Michael Jackson. Pouco tempo depois, Beth cometeu suicídio.
Tragédias à parte, o interesse pelo livro também pode ser explicado pelo fato de ele ser a crônica de uma geração. Ambientado na sociedade americana do início dos anos 90, Uma comovente obra de espantoso talento retrata a chamada Geração X, que se caracterizou por reunir jovens perdidos no mar de informações da Internet e dos videoclipes e assaltados pela descrença quase cínica na transformação do mundo em um lugar melhor para viver.
O formato do livro também não é convencional: Eggers evita narrar a história como se ela fosse a sucessão linear dos capítulos de uma novela. Diagramas, glossários e uma série de inovações gráficas simulam bulas que — ele garante — vão auxiliar a leitura e a compreensão do livro. Mas, na verdade, os recursos, que estão concentrados especialmente no início da narrativa, ampliam o cinismo e a ironia do estilo do autor e servem para criar um jogo de metalinguagem no texto. Antes de enumerar as "Regras e sugestões para tornar a leitura deste livro mais agradável", ele avisa: "Antes de tudo: estou cansado. Sinceramente! E também: vocês estão cansados. Sinceramente!"
Adiante, no "Prefácio a esta edição", ele chama novamente a atenção dos leitores: "Apesar de todo o barulho feito pelo autor em todos os lugares, isto não é, na verdade, uma obra pura de não-ficção. Muitos trechos foram tornados fictícios em variadas proporções, por vários motivos" E segue dando dicas sobre a troca de nomes, datas e lugares incluídos na história. Dicas que não parecem ter o menor compromisso com a verdade, diga-se de passagem, e sim com o estilo.