O MELHOR DO FLAMENGO NAS TIRAS DE HENFIL
Livro do cartunista rubro-negro, que oficializou o Urubu como mascote do time, rememora a fase áurea do atual campeão carioca
Assim como o compositor de marchinhas carnavalescas Lamartine Babo era fanático pelo América, tendo inclusive composto o hino dos principais clubes do Rio de Janeiro, e o dramaturgo Nelson Rodrigues exaltava as glórias do tricolor carioca, o cartunista Henfil, rubro-negro de carteirinha, detalhou com seu traço indefectível os momentos inesquecíveis de seu time do coração. Com as publicações no Jornal dos Sports, em O Dia e na Placar dos cartuns do Urubu – personagem criado originalmente na década de 60, época em que o Flamengo era ‘freguês’ do Botafogo de Gerson e Jairzinho – Henfil detalhou em suas tirinhas o imaginário do esporte mais popular no Brasil.
No início dos anos 80 nenhum time de futebol brasileiro estava à altura das conquistas alcançadas pelo Flamengo, que já possuía a maior torcida do país e colecionava títulos em seqüência. As vitórias - capitaneadas por Zico, Leandro, Marinho, Mozer, Júnior e cia. - tiveram nos cartuns de Henfil um representante à altura das glórias conquistadas. Quase 20 anos depois de Zico - o maior craque desta geração - ter deixado o Flamengo e da morte precoce de Henfil, a editora Desiderata lança o livro “Urubu”, que reúne em 144 páginas os desenhos deste gênio do humor.
Bem-humorados e provocativos, os cartuns seguem a tradição competitiva do esporte de espezinhar, com boas doses de ironia e sarcasmo, as torcidas adversárias e evocam o período em que os torcedores antagonistas ao Flamengo rezavam pelo milagre da vitória.
A torcida pó-de-arroz, do Fluminense, diante de uma partida com o Flamengo se exasperava pela bênção divina, entoando a música “João de Deus”, composta para homenagear o Papa João Paulo II em sua visita ao Brasil. Já a massa rubro-negra, de acordo com Henfil, não precisava recorrer a nenhuma ‘fezinha’. Em seus desenhos, o cartunista retratou o Cristo Redentor de braços abertos a brandir o hino do time: “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo ...”. Com a ajuda do torcedor “número Um” e a colaboração dos craques em campo, o trator Urubu não era páreo nem para João de Deus.
Dividido nos capítulos “Urubu”, “Futebol” e “Rei Zico”, o livro aborda em sua primeira parte as conquistas do bicampeonato e do tricampeonato carioca e relembra a derrota do tetra, além de recordar as participações dos jogadores que passaram pelo clube. O segundo capítulo abrange o futebol como tema geral. Trata de assuntos que permanecem atuais, como a gozação entre torcidas, que descambavam por vezes para a violência; a eterna insatisfação com a arbitragem, e até mesmo a evasão de renda dos times.
As alegrias e tristezas vividas com a trajetória de Zico nos campos fazem parte do terceiro e último capítulo. As partidas que o craque ajudou a decidir, mas também o sofrimento com o problemas no joelho do jogador, sua ida para a Europa e até mesmo a derrota na Copa do Mundo do México para a França, com o pênalti perdido pelo camisa 10 do Flamengo, são retratados nos cartuns de Henfil, que - mais que técnica e total domínio de sua arte - deixou transparecer, como bom brasileiro, a paixão de torcedor por seu time e pelo futebol.
Henfil: um cartunista apaixonado por política e por futebol
O sorriso era dócil e a aparência, franciscana; ainda assim, o cartunista Henfil entrou para a história do humor nacional pela firmeza de suas posições ideológicas contrárias à ditadura militar e pela combatividade crítica por seus ideais, que deixava nítida no ofício de cartunista. Um dos fundadores do Pasquim, ao lado de Jaguar, Tarso de Castro, Ziraldo e outros gênios do que veio a ser conhecida como a “República de Ipanema”, Henfil trouxe para o semanário carioca as tirinhas dos Fradinhos, com suas histórias ácidas e politicamente incorretas, que logo se tornaram uma das seções mais lidas e comentadas do único jornal de oposição em atividade no país durante o início dos anos 70.
Segundo Ivan Cosenza de Souza, filho de Henfil, a obra de seu pai é marcada pela inquietação. “Meu pai foi um criador voraz, talvez muito em função da hemofilia. Ele tinha pressa em realizar, em passar sua mensagem”, referindo-se à abrangência dos temas tratados por Henfil.
Poucos anos antes da repercussão dos cartuns políticos no Pasquim, Henfil já conquistara uma legião de fãs com a publicação no Jornal dos Sports de desenhos esportivos. As histórias da trupe liderada pelo Urubu, um alucinado torcedor do Flamengo, e seus demais companheiros; o Bacalhau (Vasco), o Pó-de-arroz (Fluminense), o Cri-cri (Botafogo) e o Gato Pingado (América) criaram uma identificação imediata com o leitor-torcedor.
O Urubu, de Henfil, foi determinante para a torcida rubro-negra assumir a ave canhestra como mascote do time. Assim como Jaguar viria chamar de “O Pasquim” o jornal que ajudou a criar em fins da década de 60, já esvaziando prováveis retaliações inimigas, Henfil incorporou, como símbolo, o termo ofensivo que as torcidas rivais usavam para chamar o Flamengo. Não haveria mais lugar para o Popeye, até o momento o mascote oficial rubro-negro, o Urubu seria definitivamente alçado ao posto e lá reinaria absoluto.
“Henfil percebia a inversão de certas situações e percebeu o preconceito com a torcida do Flamengo, em sua maioria formada por negros e favelados. Ao se apropriar do Urubu, ele acabou com a conotação pejorativa, caindo no corriqueiro. Tanto foi assim que hoje no Museu do Futebol, no Maracanã, estão expostos os mascotes dos times cariocas, popularizados em suas tirinhas”, conclui Ivan.