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Eu sou um contador de estórias. Neste livro estão estórias da minha infância, nas Minas Gerais. Muitas delas eu não vivi. Eu as ouvi, contadas por outros. E pelo ouvido tornaram-se minhas. Por que haveria alguém de se interessar pelas estórias de um velho? Porque todos fomos crianças. Todos andamos pelos mesmos lugares. Para Bernardo Soares, arte é comunicar aos outros nossa identidade íntima. As almas são iguais. É o que torna possível a comunicação. Alguém disse que a palavra “queijo” só tem sentido para alguém que já comeu queijo. Não é possível comunicar o gosto e o cheiro do queijo a quem nunca comeu um. A literatura é possível porque todos já comemos queijo. Todas as nossas infâncias são variações sobre os mesmos temas. As memórias de um outro fazem ressoar, naquele que as lê, o seu próprio passado adormecido. Assim, não se trata de um encontro com as memórias de um outro, diferentes das minhas. Trata-se de um reencontro com o meu próprio passado. Se isso não acontecesse, o texto escrito seria um texto morto. Murilo Mendes nos lembra que todos os textos são feitos com pedaços do escritor. Acho que isso é verdadeiro no caso dessas minhas memórias. Posso então dizer que são o meu sangue, o meu corpo. Peço, portanto, aos meus leitores, que me leiam antropofagicamente... É a antropofagia que nos torna iguais. Antropofagia é eucaristia.
Título: O Velho Que Acordou Menino
ISBN: 9788542205152
Idioma: Português
Encadernação: Brochura
Formato: 16 x 23
Páginas: 272
Ano copyright: 2005
Coleção:
Ano de edição: 2015
Edição: 2ª
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Autor: Rubem Alves
Rubem Alves (1933-2014), estudou Teologia e foi pastor até 1963. Tornou-se mestre em Teologia pelo Union Theological Seminary (Nova York, EUA) e doutorou-se em Filosofia pelo Princeton Theological Seminary. Foi professor por muitos anos e, no início dos anos 80, tornou-se psicanalista pela Sociedade Paulista de Psicanálise. Possui mais de 50 obras publicadas em diversos idiomas. Autor de crônicas, de livros sobre educação e infantis, ele guia seus leitores pelas paisagens da beleza e considera seus companheiros de viagem filósofos como Bachelard e Nietzsche, poetas como Fernando Pessoa, Adélia Prado e Cecília Meireles. Mineiro, é fácil perceber sua veia de contador de estórias. Mas nota-se também sua vasta cultura, como ele mescla conhecimento com sabedoria e traduz isso numa escrita simples, de frases curtas. O certo é que suas obras nos ajudam a refletir sobre o que realmente importa na vida, a voltar os olhos para o que há de mais humano, para o essencial. É autor, entre outros, de Protestantismo e Repressão, Filhos do Amanhã, Variações sobre a vida e a morte e Ostra feliz não faz pérola, que conquistou o 2º lugar na categoria contos e crônicas no Jabuti 2009.