Rondó da lagoa dos irerês

Autor: Joao Camara
Editora: Topbooks

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Sinopse

João Câmara escreve contra a aceleração do presente. Em tempos de clareza imediata, é uma aposta rara. O leitor não acompanha apenas fatos; aprende a habitar um espaço humano, contraditório e profundamente brasileiro. O romance também fala a partir do escritor contemporâneo, cercado por excesso de memória cultural, consciente de escrever depois das grandes narrativas, utopias e promessas modernas.RONDÓ DA LAGOA DOS IRERÊS acompanha certa tradição. Dialoga com Musil, alcança Sebald e Don DeLillo (sobretudo em Ponto Ômega). Neles, e neste romance, o verdadeiro acontecimento é a consciência em movimento, ou mesmo a autoconsciência. É justamente aí que reside sua força mais duradoura, do sublime e do monstruoso, cujo ponto de contato entre eles é a deformação e o excesso. Ali estão todos os pontos ômega e de fuga. Câmara conquista algo difícil no campo do romance.A cidade de Neves poderia situar-se em qualquer ponto do litoral brasileiro, ou viver apenas na memória de quem ali percebeu que nenhuma cidade se mantém igual. À margem de uma lagoa de águas opacas, cruzam-se padres fatigados, ex-professoras sem lugar no mundo, atores longe do centro das atenções, negociantes e intelectuais acumulando papéis como se ainda fosse possível retardar o desaparecimento das coisas.Em um dos centros desse movimento está Mestre Francisco. Ele compreendeu tarde que o conhecimento não protege ninguém, nem do envelhecimento nem da perda. Ao redor, artistas tentam converter história em cinema, produtores discutem versões frágeis da realidade em um mundo em queda, onde se disputam narrativas como heranças invisíveis.Há algo decisivo na arquitetura do livro, um regime de repetição e deslocamento. Horários exatos criam a promessa enganosa de cronologia. Cada minuto abre fissuras, o presente deixa-se penetrar por camadas históricas e afetivas. Os habitantes de Neves tentam encontrar vitalidade na borda do vazio, onde morte e símbolo se misturam.Eis que, num minuto específico do entardecer, algo falha. Mestre Francisco continua caminhando, mas percebe, quase sem dramatização, que já não compartilha o mesmo tempo dos outros. O mundo segue em continuidade; ele, não. Não está inteiramente no próprio presente. O impacto é brutal. Maître Francisco c’est moi — et, désolé de vousledire, c’estvousaussi.Há, ainda, o outro centro, fundador: uma narrativa de origem subterrânea, subaquática. Que excelente cosmogonia pratica João Câmara aqui! Que mais pode desejar um escritor além de criar não apenas uma atmosfera ou um mundo, mas o próprio mundo e, nele, o piolho de um mundo colapsado? Vemos desse colapso nascer Lotan, antes de existir a própria ideia de identidade, anterior ao carbono e ao amoníaco, filho de qualquer indeterminação ontológica, ligado ao espelho trêmulo da lagoa e às lampreias. Sem corpo, sem tempo, sem história, sem culpas.Enquanto percorremos Neves, o texto desmonta a ideia de presente estável. O episódio do Visconde Beauchateau torna-se comentário interno, narrar o passado é também fabricar o agora. A ficção encena a manipulação das narrativas culturais. Nada chega ao leitor sem atravessar alguma edição, mercado ou memória deformada.Neves deixa de ser cenário e torna-se organismo narrativo. A Lagoa dos Irerês funciona como ponto de retorno simbólico. Padre Ari revela o esgotamento das instituições espirituais. Guima, ex-professora – a primeira mulher em Neves a usar paletó e gravata – desafia a norma social e tensiona o fracasso amoroso. IngeDoerner mostra que ser é sempre um ato diante do olhar alheio. Viver é performar.Os conflitos são cognitivos, estéticos. JOÃO CÂMARA recusa clímax e soluções morais. Na sua escrita, o que se acumula é a consciência de viver entre restos. Ao final permanece a sensação de ter atravessado um campo de forças onde arte, memória e sobrevivência são uma única Quimera. Poucos romances brasileiros recentes trabalham o tempo com tal rigor. Aqui, não são as pessoas que pensam a cidade, é a cidade que pensa as pessoas. Mestre Francisco não é uma caricatura nem um herói melancólico. Ele encarna algo raro: o intelectual que percebe ter sobrevivido às próprias certezas.SIDNEY ROCHA, romancista

Dados

Título: Rondó Da Lagoa Dos Irerês

ISBN: 9786558970439

Idioma: Português

Encadernação: Brochura

Formato: 16 x 23

Páginas: 512

Ano de edição: 2026

Edição:

Participantes

Autor: Joao Camara