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OBJETO
DE DESEJO
o tempo corre veloz por dentro desses dias de espessura incalculável. daqui da sala de casa, ouço a mistura de sons que vem dos apartamentos vizinhos. a trilha sonora intermitente parece coincidir com o ritmo da minha leitura de abrupto. justaposições. versos que terminam de repente. nessas notas suspensas paira uma alegria inusitada.
inês nin escreve como quem enxerga fotogramas. tem algo de poeta-cineasta. faz montagem experimental. divaga e enxerga ângulos imprevistos de luz. seu pensamento gera um atrito, uma pulsação que ocorre em deslocamento. capta os eventos em suas escalas e impactos variáveis. inês percebe a vida que ocorre antes das formulações corriqueiras. acessa a atmosfera, em casa, na praça pública, e reconhece o “instinto/de alguma coisa/(existir)/alguma coisa/que seja/viva/respire”. contra o neoliberalismo, “abriremos terrenos”.
chegar é menos interessante do que (se) fazer mover, como se mercúrio saísse por aí com uma curiosidade atenta, flutuante, ainda que em travessias breves (tudo que gostaríamos de fazer agora). o deslocamento talvez seja aqui uma espécie de impulso perceptivo ou modo de rearranjar os minutos, os dias, os acontecimentos, “para que se formem/novas memórias/e campos de ação”.
a “investigadora crônica” diz o que soubemos esquecer. faz perguntas sutis: “um arbusto/tão sereno/que tudo percebe”. inês expõe as condições sob as quais escreve. o corpo é tessitura coletiva: “multidão-livro, multidão-blusa, multidão-multidão e categoria nenhuma”. com “desejos de nomadismo e floresta”, busca se perder, talvez “a única coisa que há”. entre um passo e outro, o movimento impede a queda, ou, ao menos, refaz as conexões e as membranas. inês favorece os encontros. aponta modos de continuar pelas brechas: “nunca parar de dançar”.
descrever algo num tom de quem fala pode ser um modo imprevisto de reler e reconfigurar os sentidos alojados ou gastos demais. percebe as “pequenas ervas cheirosas” e o “amor/afáveis ligaduras”. persiste por meio dos experimentos caseiros ou das performances cotidianas, saberes situados para contrabalançar o excesso de abstração: “vento que tem campo/e campo/aberto à construção de/flores/e à recepção de sementes”.
luiza leite
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