ARRANJOS DE PASSAROS E FLORES
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OBJETO
DE DESEJO
Os imitadores sequestram o autor original e cobram um resgate baixo, desvalorizando a vítima. A estranheza se transforma em regra e o que era motivo de adoração e exclusividade vira moeda corrente. Clones surgiram aos borbotões na poesia brasileira, de Cabral, de Drummond, dos concretistas. Manoel de Barros foi a última vitima do saque. Como se arrombar a gramática e transformar verbos em substantivos produzissem atributos suficientes para qualquer um chegar à grandeza do escritor do Pantanal. Estilo não se copia. Ninguém vai produzir coca-cola transcrevendo sua fórmula. O poeta mineiro Wilmar Silva é uma surpresa neste cenário de homens duplicados. Não repete o roteiro de Manoel de Barros, e sim o enriquece com novos atalhos, dialogando com a conterrânea matriz rosiana. Seu décimo livro Arranjos de Pássaros e Flores encanta pelas dificuldades do trajeto. É sua melhor obra, depois dos interessantes e experimentais ANU (2001) e Pardal de Rapina (1999). Descreve 31 dias em um jardim durante o inverno, no mais cruel dos meses, propondo cenas minúsculas do mundo vegetal. Da “lavoura de pétalas”, define o caráter dos moradores. Apanha as minúcias de uma estação difícil às plantas, em que o homem procura o recolhimento. Só que ele vai atrás do que o homem não procura. Ao contrário de se trancar em casa, a voz poética se sujeita ao descampado. Não faz a ousadia das travessias dos grandes rios, mas traz a resistência navegável de um igarapé. O que poderia ser paisagismo ou beletrismo acaba sendo volúpia verbal. São detalhes que diferenciam uma cena da outra, a natureza muda de acordo com a proporção da chuva e da neblina.
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