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As teorias racistas estão vivas
Anônimo
Há na história das ciências sociais uma série de esboços de teorias que buscavam explicar as diferenças de desenvolvimento entre as nações modernas ocidentais e as pré-modernas e não-ocidentais. Em 1853, por exemplo, Arthur de Gobineau publicou o seu “Ensaio sobre a Desigualdade das Raças Humanas”, um livro que resumia o que hoje se chamaria de “racismo científico” (ou “racialismo”), uma crença que vigorou até o início do século XX nas ciências sociais, a saber, a tese de que o homem branco europeu tinha o padrão da melhor saúde, da maior beleza e da maior competência civilizacional em comparação às demais “raças”, como a “amarela” (asiáticos), a “vermelha” (povos indígenas) e a "negra" (africana). A tese, é claro, que já era contestada desde o seu começo no século XIX, foi jogada para sempre na lata de lixo da história no século XX, em particular depois daquilo que resultou no Holocausto. Portanto, o “racialismo” é hoje considerado pseudociência. No entanto, desde então, houve uma tentativa reiterada de ressuscitar esta pseudo teoria científica em uma nova roupagem: podemos chamá-la de “culturalismo”. A “cultura”, e não a “genética”, seria a “praga” passada de geração a geração que, ao fim e ao cabo, explicaria o subdesenvolvimento de nações como o Brasil (não mais "africanos" e "indígenas" versus "europeus" ou "arianos"; mas "cultura latino-americana" versus "cultura anglo-saxônica"). A solução, neste caso, não seria o “branqueamento” da nação, mas sim a “moralização” da nação. É disto que se trata o livro de Rodrigo Constantino, “Brasileiro é Otário? O Alto Custo da Nossa Malandragem”. Em linguagem epistemológica: O explanandum (ou seja, o fenômeno que precisa de ser explicado), a saber, o “jeitinho brasileiro”, toma o lugar do explanans (ou seja, aquilo que explica o fenômeno). A ilusão é que se “explicou” alguma coisa quando na verdade apenas se reificou o “status quo” (como já fazia o "racismo científico"). O livro do Rodrigo é um convite à pseudociência social brasileira (um mergulho no senso-comum). A explicação de Rodrigo para o subdesenvolvimento do Brasil tem, para as ciências sociais, o mesmo valor que a teoria do “horror ao vácuo” tem, para as ciências naturais, para explicar os fenômenos da pneumática. Rodrigo é um ideólogo (não um cientista social). Caso o leitor tenha um genuíno interesse em entender o que torna um país desenvolvido (e o que torna um país subdesenvolvido), procure pelos verdadeiros trabalhos em economia política desde o século XVIII até o século XX. A “malandragem” não explica o que torna o Brasil subdesenvolvido, mas explica a fonte de renda do autor deste livro panfletário e reacionário. As teorias racistas estão vivas, apesar de repaginadas na “cultura”.
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