COM A NOITE DE PERFIL - ENSAIOS SOBRE...ANDRADE
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OBJETO
DE DESEJO
A poesia de Eugénio de Andrade revela, ao longo da sua evolução, uma tendência para a concentração verbal, a expressão breve em núcleos, que, mesmo em textos longos, pode ser vista numa concisão de fragmentos abrindo-se sobre
o real, absorvendo-o e transfigurando-o. Chamarei, aqui, brevitas a esse tipo de concentração, querendo utilizar a forma
etimológica como paradigma da busca das origens da língua, comparando-a àquela busca que, paralelamente e em termos
de linguagem, Eugénio de Andrade faz no sentido de uma pureza que fosse originária, uma criação com características de
primordialidade.
O retorno a esta matriz da linguagem
representa uma das direcções do percurso
poético de Eugénio que, pelo menos idealmente, diz aspirar a uma síntese capaz de
conter o máximo de significado: «o silêncio
é a minha maior tentação». O silêncio como
máxima forma expressiva que seja síntese e
fim daquelas palavras tão «gastas, envelhecidas, envilecidas» que se tornaram num
«vício torpe», que seja único significante
para todos os significados, que represente
uma espécie de empíreo dantesco das palavras em que a candura da «luce intellettuale»
seja a cor branca em que se fundem todas as
cores, para que a poesia possa ser «branco no
branco».
[Federico Bertolazzi]
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