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OBJETO
DE DESEJO
Confira três poemas do livro:
Brinde
Enchi de sol meu copo d’água
e me brindei ao som de um violino.
Me molhei na luz
que a tarde assoviava
e cantei à beira de um silêncio a pino.
Passei por perto de estar quase ali,
perdi o ponto de onde não parti.
Zombei da fome porque havia trigo,
briguei comigo
e só assim venci.
Levei na mala minha alma pássara,
anunciei ao mundo a minha sorte súbita:
tocar na vida sem qualquer trapaça,
mistério zero, delícia igual
ao gozo matinal de uma fruta.
Vida, te agradeço. Setenta anos
e ainda em recomeço.
*
Soneto acadêmico
Meu caro, seu livreto está um colosso.
Não devia, mas ouso lhe dizer:
votar, agora, está virando um osso
muito duro e difícil de roer.
Vou de Homero ou, talvez, que tal Petrarca?
Escolher narrador ou sonetista?
Querem todos o tíquete da barca,
do camelô até o capitalista.
Todavia, o navio é bem restrito:
lotação de quarenta, nada mais.
Para evitar balbúrdia, aperto e atrito,
devia haver milhares de imortais.
Meu voto é seu, assim que chegue a vez
do candidato mil e trinta e três.
*
Além
O poema acaba aqui.
O que vem agora não é meu,
nem sei de quem seja.
Além de mim, com clareza,
a poesia passeia,
num rumor de bruma e incerteza.
Seu banquete começa
depois que eu já tirei a mesa.
Desligo o som do poema.
Ele insiste, à revelia.
O poema por fim
avança à sua origem:
lança na cara da luz
o pólen da letra.
E vai, num voo feliz,
se transformando
em aprendiz de borboleta.
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