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OBJETO
DE DESEJO
Mercuriais, dúbios, indecidíveis, os versos de Gabriela Marcondes nunca se estabilizam. Entre a precisão e a fluidez, os poemas desenham imagens volúveis e inquietas dentro de um caleidoscópio. Como Alice no País das Maravilhas, experimentamos a vertigem das metamorfoses, em que os sentidos se modificam feito fumaça. Afinal, “quebrar o brinquedo ainda é mais brincar”, diz Orides Fontela em uma das epígrafes. Em vez de se deparar com um coelho apressado, Gabriela, encontra, no outro lado do espelho, o mestre Bashô, que definiu o haicai como “o que está acontecendo aqui e agora”. Seu olhar contemplativo nos revela, assim, como amar o mundo: pássaros em vôo / asas escrevem / uma frase no céu.
Um célebre koan zen sugere que “as palavras fracassam”. Daí nasce a possibilidade da invenção. Na falha brilham as fagulhas, lampejos imprevistos. Quando as coisas colapsam, enxergamos outros horizontes. É na “rachadura que o amor entra”, pois eros está na vizinhança do erro. Basta subtrair uma letra, produzir deslocamentos ínfimos, quase nadas, que, no entanto, mudam o rumo de tudo. Como o mago na carta do tarot ou um trickster, a poeta amplia a compreensão de que as palavras são generosas e fugidias, passíveis de recombinação ininterrupta. Num só gesto, os poemas neste “destino leia-se sentido” traduzem o que na linguagem falta e excede, restituindo às peças desmontadas do brinquedo sua capacidade mágica.
[Luiza Leite]
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