O livro Estranha economia traça uma panorâmica da obra de Felipe Barbosa, com imagens de seus trabalhos no ateliê e em espaços expositivos. Com foco no processo criativo do artista, apresenta textos críticos de Alvaro Seixas, Luciano Vinhosa e Sheila Cabo Geraldo.
Estranha economia é também o título da série de trabalhos em que o artista usa objetos do cotidiano recobertos de picotes de papel-moeda e os agrupa em instalações que revelam ambientes familiares porém cheios de estranheza.
Outras séries de trabalhos do artista mostram bolas de futebol desconstruídas em seus gomos e remontadas em planos ou outros formatos, palitos de fósforo agrupados para formar esferas orgânicas, casas de cachorro montadas em “condomínios”, martelos totalmente recobertos por pregos.
Para Alvaro Seixas, “esses objetos, e muitos outros, elaborados pelo artista Felipe Barbosa, podem ser vistos como crias maravilhosamente degeneradas da modernidade”.
Segundo Sheila Cabo Geraldo, “quem visita o ateliê de Felipe Barbosa reconhece sua avidez por objetos que se acumulam e se transformam”. Estes objetos e sua transformação, na obra do artista, estão, a meu ver, a serviço de um desejo de catalogação, de ordenação, como uma pulsão aristotélica.
Não só nas fotos dos trabalhos em exposição estes se apresentam ordenados, arrumados, catalogados; também nas fotos de ateliê está busca de ordem impera: “Um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar.” Matériasprimas: palitos de fósforo, bolas de futebol, casas de cachorro, lápis, livros antigos, esquadros de acrílico, bolas de sinuca, bombas, pilhas, guarda-chuvas...
Ferramentas: martelos e pregos (também matérias-primas), alicates, chaves de fenda, cavaletes, mesas de trabalho, mapotecas, colas, tintas em spray... Todos empenhados em um trabalho incessante demconstrução de uma nova ordem.
Finalmente, como aponta Luciano Vinhosa, “apropriando-se de objetos industrializados adquiridos no comércio varejista ou simplesmente encontrados nas ruas do mundo, o artista os reúne em novas formas para, em seguida, os recontextualizar na arte, ressignificando seus usos e funções sociais”.
Os interiores de uma casa são transformados pela “pele” de picotes de papel-moeda que cobre todos os objetos. Em um canto, uma “bicicleta”que, com a nova “pele”, perdeu sua função de meio de locomoção, transformou-se em um objetode arte e, no espaço expositivo, se apresenta ao espectador como algo que “sempre foi assim”, como um objeto de arte saído diretamente da imaginação do artista — afinal são as convenções do “cubo branco”.
Mas ao mostrar a imagem da simples e comum bicicleta meio recoberta pelos picotes, em pleno processo de construção, o livro abre ao leitor a possibilidade de ampliar sua reflexão sobre o fazer artístico. (Jozias Benedicto)