GENEALOGIA DIALETICA DA UTOPIA
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OBJETO
DE DESEJO
Na contramão do pragmatismo – poderíamos dizer, do cinismo – dos tempos atuais, Carlos Lima apresenta um texto sobre a utopia. Revisita os clássicos para relembrar o imperativo de um mundo melhor. Revê Benjamin, Adorno e Luckács, entre outros. E adentra a literatura: Baudelaire, Rimbaud, Vallejo, Mário de Andrade. “Este livro”, diz, “é uma ponte sob a qual corre o fluxo de um rio poderoso, que é o rio da amizade – o principal formador do grande oceano da utopia.”
Utopia é ou + topos, lugar nenhum, não-lugar. Ela nos fala de uma insatisfação permanente, uma subversão permanente, na eterna busca do lugar-bom, a casa do homem. “A utopia”, diz o autor, “é a arqueologia do amanhã; o utopista é um arqueólogo do futuro.” Travessia, fronteira, passagem, errância. “A filosofia terá a consciência do amanhã, o princípio do futuro, o saber da esperança, ou não terá saber algum”, escreveu Ernst Bloch.
Carlos Lima reconstitui como se formaram os paradigmas utópicos desde o momento grego até o século XX. O começo é a utopia platônica: “Um outro mundo acima deste, acima do próprio céu, que nunca foi cantado ou será cantado por nenhum poeta, o mundo da essência, o mundo onde a realidade, sem forma, sem cor, impalpável, só pode ser contemplada pela inteligência, onde se contempla a verdadeira ciência, a verdadeira justiça, a verdadeira sabedoria.” A seqüência é a crítica. Em Aristóteles, o homem já é um ser social: aquele que se coloca fora do Estado “ou é um ser degragado ou um ser superior”.
Seguem-se análises sobre Thomas Morus, criador do conceito moderno de utopia, Rabelais, criador da contra-utopia, e Thomas Münzer, defensor de uma teologia revolucionária que projeta uma nova imagem de Deus no homem e do homem em Deus.
Rousseau traz a utopia do cidadão. Anuncia que falará do humano do homem e do homem natural e defenderá a causa da humanidade. Ao mesmo tempo, descreve que há na espécie humana dois tipos de desigualdade: uma estabelecida pela natureza e outra que é moral e política.
Depois dele vem Marx, que supera Saint-Simon, Owen, Fourier e transforma a utopia socialista em uma utopia concreta, que aponta um sujeito, o trabalhador. Fundamenta a crítica contra a alienação do homem diante da história, da religião e do Estado. Busca explicar a formação das idéias a partir da prática material: a força motriz da história não é a crítica, mas sim a revolução.
Por fim, é na arte que Carlos Lima vai localizar a utopia: “A poesia é um mistério. Toda poesia é o mistério do encantamento do ser que [...] se faz linguagem. A decifração desse mistério é uma das tarefas da crítica, a missão verdadeira da crítica consiste nessa decifração.” O livro termina na América Latina, que já foi vista como a terra sem mal. Para afirmar, claramente, o eterno sim do ser.
(César Benjamin)