Três mulheres marcantes que contribuíram com seus gênios para o pensamento do conturbado século XX: Hannah Arendt (1906-1975), Melanie Klein (1882-1960) e Colette (1873-1954). A elas, Julia Kristeva presta uma homenagem ao contar suas vidas e comentar suas obras. Neste segundo volume, a investigação da psique humana empreendida por Klein merece atenciosa análise e enaltece a figura da psicanalista austríaca, responsável por uma brilhante contribuição aos princípios desenvolvidos por Freud.
Enquanto Freud centra a vida psíquica do indivíduo no complexo de castração e na função de pai, Klein – sem ignorá-las – assenta-a numa função materna, ausente da teoria do fundador. Entretanto, a mãe assim revelada está longe de se erigir em objeto de culto. Capaz desde o nascimento de uma ligação com o objeto (o seio, a mãe), e povoada de fantasias tão violentas e ao mesmo tempo tão reparadoras, a criança, segundo Melanie Klein, abriu novos horizontes à clínica da psicose e do autismo.
Klein foi pioneira na psicanálise de crianças por ter sido a primeira a elaborar técnicas específicas para os processos psicoterápicos que cobrissem todas as faixas etárias. Para as mais velhas, reestruturou a combinação de educação tradicional e aspectos comportamentais. Sua contribuição não se limitou à infância ou à adolescência; e suas descobertas abriram um precedente para uma ampla discussão teórica a respeito principalmente dos métodos.
Julia Kristeva destaca esta nova orientação e enfatiza que, apesar da inovação, ela não rompeu com os princípios fundamentais do freudismo (a exemplo de dissidentes, como C. G. Jung). Segundo a autora, a obra de Klein "é menos um texto canônico do que o desenvolvimento de uma poderosa intuição prática que, após dolorosas controvérsias, suscitou os desdobramentos mais fecundos de que se vangloria hoje a psicanálise moderna".
A análise de Melanie Klein da psicose, infantil ou adulta, permite precisar os mecanismos profundos que condicionam a destruição do espaço psíquico e o assassinato da vida do espírito que ameaçam a era moderna. A obra de Klein pode não fornecer chaves mágicas para evitar o mal-estar psíquico humano, mas ajuda a lhe dar um acompanhamento adequado e uma chance de modulação com vistas a um possível renascimento.
Por ter entendido a angústia, esta onda portadora do prazer, e por ter eleito a transferência e o imaginário como territórios privilegiados da experiência analítica, Melanie Klein fez da psicanálise uma arte de cuidar da capacidade de pensar.