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Memórias, com qualidade e humor
Alcir Santos de Oliveira
Num texto enxuto, usando a técnica de capítulos curtos, duas folhas em média, Isabel narra suas memórias de forma direta e sem meios termos. Desnuda-se diante do leitor contando coisas que poucos, pouquíssimos escritores contariam. Acontece que não estamos tratando de qualquer escritor e sim de Isabel Allende que divide, com Vargas Llosa, no meu entender, a posição de melhor escritor vivo do mundo latino-americano.
O detalhe, o grande trunfo da autora, é que, sob o argumento de escrever memórias, ela trata, isso sim, da questão da mulher, inclusive nos dias atuais. Portanto, um livro que enfoca o feminismo de uma forma muito direta, trazendo ao leitor fatos e dados que ela viveu e/ou conheceu nas partes do mundo por onde andou. Dessa forma aborda temas perenes e delicados, como o uso sistemático do estupro como instrumento de enfraquecimento, submissão e desmoralização das pessoas, especialmente mulheres. De passagem toca na questão chilena, um país de forte patriarcado, onde as mulheres continuam submissas e controladas. Também deixa clara a grande farsa de um país estável, sem grandes desníveis de ordem social e econômica. Nada disso. Da leitura salta um Chile diferente do que nos foi vendido por tanto tempo, com incríveis mazelas sociais, fome e miséria.
Feminista assumida e bem resolvida, a autora faz questão de deixar claro uma série de posicionamentos pessoas, inclusive na questão afetiva e sexual. Também não faz questão de esconder suas cicatrizes tais como a perda da mãe, Panchita e Paula, a filha que mereceu um livro inteiro, mas que, ainda assim, está presente a cada instante da vida da autora. Chama a atenção para os que se iludem na vã fantasia de um envelhecimento tranquilo, cercado de cuidados, carinhos e atenções. Nem sempre. Pelo contrário, na maioria das vezes é um tempo de dor, descaso e solidão, além das enormes dificuldades de ordem financeira, graças às aposentadorias e pensões de valores irrisórios.
Mas, porque não deixar que Isabel nos fale? “E em que consiste meu feminismo? Não é o que temos entre as pernas, mas, sim, entre as orelhas. É uma postura filosófica e uma sublevação contra a autoridade do homem. É uma maneira de entender as relações humanas e ver o mundo, uma aposta na justiça, uma luta pela emancipação de mulheres, gays, lésbicas”..................”O patriarcado é pétreo. O feminismo, como o oceano, é fluido, poderoso, profundo e tem a complexidade infinita da vida; move-se em ondas, correntes, marés e às vezes em tempestades furiosas. Tal como o oceano, o feminismo não se cala.” (fls. 16/17). E mais adiante: “A emancipação da mulher não é incompatível com sua feminilidade, acho até que são complementares. Um espírito livre pode ser sexy, dependendo de como o olhem. Admito modestamente que não me faltaram pretendentes em minha prolongada existência, apesar do feminismo.” (fla.58)
E mais “A violência contra as mulheres é universal e tão antiga quanto a própria civilização. Quando se fala de direitos humanos, na prática se fala de direitos dos homens. Se um homem é surrado e privado de liberdade, é tortura. Se uma mulher suporta a mesma coisa, chama-se violência doméstica, que na maior parte do mundo ainda é considerada assunto privado.” (fla.111). E agora, somente para concluir: “Os homens temem o poder feminino, por isso as leis, as religiões e os costumes impuseram durante séculos toda espécie de restrição ao desenvolvimento intelectual, artístico e econômico das mulheres.” (fla. 1140.
Eis aí um pouco do que esse extraordinário livro pode nos oferecer. Portanto, se você gosta de boa leitura, aproveite.
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