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OBJETO
DE DESEJO
O primeiro livro e seus tumultos.
Primeiro, o poeta, Gabriel Bustilho: nestas páginas sempre entre dois, inquieto, insurreto, arquiteto de seu sujeito lírico. Vivo em 2020, atento a todas as quedas e à crueza triste desses nossos tempos de quem “quer se manter vivo/obrigatoriamente se mantém”. Bustilho parte para dentro de si, movimento de implosão subjetiva que se alastra, “hoje vou abrir os botões da camisa/e que se foda”, e nos implica ao mesmo inconformismo “de quem não morre na imundície deste lugar asséptico”. Seu sujeito é um campo de batalha.
Segundo, seu percurso é de mãos dadas. Os poemas de Bustilho nos convocam, retomam a mesma paisagem que nos instiga, esses “dias em que a rua é uma casa/arruinada” e ainda assim precisamos atravessá-los. Os dias nos exigem. E o poema é o que sobra e justifica. Uma sintaxe que se alterna entre a hesitação e a certeza de uma urgente catarse. Um valete que nos oferta uma granada à porta da esperança — “uma inútil granada que nunca explode”. Implode, corrói por dentro as normas e impõe essa vida que precisa “a palavra se dissipando nas veias”.
O poeta segue sendo essa aporia, esse vício da busca, essa reação de quem tem “no peito um fuzil/contente e desconfiado”. A “metralhadora em estado de graça” de que falava Roberto Piva. A ampla e inútil, por isso bela, generosidade de assinar os dias como os poemas: “porque tudo sempre pode ruir”.
Flávio Morgado
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