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OBJETO
DE DESEJO
Na França, Filipe o Belo cultivou contra eles uma animosidade que chegou até ao irreprimível desejo da sua extinção;
desígnio antecedido por outros factos que facilitaram os seus objectivos. Tudo começou porque o papa Bonifácio VIII
fez uma bula pontifícia que determinava a supremacia do seu poder católico sobre o poder temporal. Filipe o Belo reagiu contra esta hierarquia; suportou-a mal durante a vigência de Bonifácio e do papa de curto reinado Bento XI, mas
conseguiu que o seu papa sucessor, Clemente V, mudasse a sua residência para França. Este papa fora do Vaticano, instalado em Avinhão, foi ameno em relação ao poder temporal do rei. Rei e papa conviveram sob uma tolerância mútua
e cooperativa; e decidiram colaborar no que fosse necessário para a extinção daqueles templários com armas já depostas
e confortável ociosidade, e para a apropriação das suas riquezas.
Houve um metódico extermínio de templários franceses, depois
de julgamentos sumários e autos-da-fé que a ferro e fogo os eliminaram em grande número, incluído nele o seu chefe máximo Jacques de
Molay; mas houve, ainda assim, a lograda fuga de muitos para a Península Ibérica e sobretudo para a Escócia, onde se instalaram com outras
designações de ordem e ondeexerceram a sua vocação bélica (Portugal
ficou a dever à sua preciosa colaboração a tomada de Santarém e a de
Alcácer do Sal aos Mouros).
É neste contexto de extermínio dos templários franceses que deve
compreender-se a história que Rachilde conta no seu romance Nossa
Senhora dos Ratos (1931); com monges a esmorecerem numa saudosa
melancolia que lhes traz à memória a sua guerra aos «infiéis» usurpadores do túmulo do Cristo,e a lutarem com uma resistência sem armas
contra o rei de França e o papa de Avinhão. A terem uma tardia consciência da inutilidade da sua riqueza, a viverem num castelo-convento
com estruturas fisicamente aliadas ao superior e implacável desígnio
que determinava a sua extinção; a desaparecerem… mortos pelos
archeiros do rei ou a escaparem, com hábeis fugas além fronteiras, às
torturas e aos castigos de Filipe o Belo
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