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OBJETO
DE DESEJO
Por Adriana Lisboa
"Tudo espera ser renomeado. Tudo deve ser visto a partir do lado de dentro." Este pequeno trecho do livro Os amanhãs ilustra o olhar que o jovem escritor Hafid Aggoune, uma das mais gratas surpresas da prosa francesa contemporânea, oferece à atividade da escrita (e à própria existência): um olhar marcado pela curiosidade, pela redescoberta daquilo que a banalização já desbotou (daquilo que "espera ser renomeado") e, sobretudo, por uma intensa generosidade. Ver as coisas "a partir do lado de dentro" é uma atitude no mínimo generosa, se não positivamente ousada, em tempos da primazia dos exteriores e das superfícies. Este texto breve e pungente, que agora chega às mãos do leitor brasileiro, caracteriza-se por uma prosa bem cuidada, lavrada em imagens sutis, a revelar um apreço incomum pela matéria-prima de todo escritor – a palavra.
O poder de salvação da palavra aparece tematizado no próprio livro, narrado em primeira pessoa por Pierre Argan, um homem de 76 anos que se reencontra consigo mesmo após um hiato de meio século numa instituição para doentes mentais. Após viver uma tragédia pessoal dentro da tragédia coletiva que foi a Segunda Guerra, Pierre Argan volta as costas ao mundo ("a palavra abandonou-me") e passa os dias sentado num banco, à espera de um trem que não existe e de uma mulher desaparecida, observando um pintor trabalhar, com as mãos nuas, em quadros igualmente inexistentes. Pierre, como esse pintor, procura aquilo que não é possível ver. Mas é justamente nesse invisível que se encontra "a união do efêmero com a eternidade"
Os amanhãs é a narrativa dessa reconciliação de Pierre Argan consigo mesmo. "Eu reatava com o amanhã e com o acaso. (...) Todas as idades e todos os rostos de minha vida inundaram-me numa vaga vertiginosa. Reencontrei a infância dispersa em mim, o ente feito de silêncio que cada um carrega consigo." Devolvendo a si mesmo esse olhar que revolve amorosamente o mundo "a partir do lado de dentro" Argan renasce em sua velhice, através da escrita de um livro – o texto que o leitor tem nas mãos: "Não sei o que escrevo. Não sei o que é escrever este livro. A escrita me dá forma na convulsão de sua gestação horizontal. Ela apaga o medo de si. Ela atravessa meu sangue."
Num texto vazado pela dor da memória – que remonta às lembranças mais antigas, da época em que tinha apenas dois anos de idade e foi mandado à Argélia para conhecer a família paterna – o narrador criado por Hafid Aggoune toma o leitor pelas mãos em busca não de alívio, conforto ou piedade: ambos seguirão, antes, numa viagem que pretende abrir novas janelas para o mundo. Numa viagem que pretende enlaçar o mistério da existência, sem desvendá-lo, acariciando tudo aquilo que os personagens da vida têm de trágico, frágil, cruel e belo – sejam eles de carne e osso ou de papel.
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