Ditadura através da poesia
Organizada pelo professor e poeta Alberto Pucheu, a antologia Poemas para exumar a história viva; um espectro ronda o Brasil apresenta 25 poemas escritos sobre a Ditadura por poetas que foram presos políticos ou assassinados pelo regime militar. Diversos poemas e autores resgatados neste livro foram esquecidos ao longo dos anos – inclusive pela crítica especializada – exatamente por tematizarem a ditadura e a resistência a ela.
Além de sua parte principal com poemas referentes ao golpe de 64 e ao que a partir de então foi instaurado no país, o livro tem um poema adicional, escrito em 2019 por Pedro Tierra – um dos poetas que constam da seleção –, que tematiza o momento histórico que hoje vivemos, criando um vínculo entre o passado, o presente e os diferentes modos de autoritarismo que historicamente nos concernem. Ao vincular esses diferentes períodos, o livro mostra como os poemas mais antigos são assustadoramente atuais e como nosso tempo remete ao anterior.
Tanto em seus poemas quanto em diversos modos de ativismos, que vão, dentre outros, das guerrilhas urbanas e rurais às intervenções culturais e jornalísticas, os 25 poetas presentes na antologia, por suas posições políticas, foram presos e alguns chegaram a ser assassinados pelo regime, caso de Carlos Marighella e Luiz Eurico Tejêra Lisboa. Pucheu apresenta nomes pouco conhecidos do público majoritário da poesia, como, dentre outros, Pedro Tierra, Maria Celeste Vidal, Alípio Freire, Wilma Ary, Raimundo Nonato da Rocha, Lara de Lemos, Stênio Freitas e Loreta Valadares, além de outros poetas mais conhecidos, tais como Ferreira Gullar, Thiago de Mello, Eduardo Alves da Costa, Álvaro Alves de Faria, Moacy Félix e Nicolas Behr, para mencionar alguns exemplos.
Na apresentação, em duas passagens, Pucheu escreve o que poderia servir como um resumo da ideia do livro: “Ainda que obviamente não por tal motivo, escolhi a que hoje me parece a mais difícil: uma antologia de poetas que foram presos políticos durante a Ditadura, com muitos sendo torturados pelos algozes militares e delegados ou por eles assassinados. Havendo neles um escrever para combater, há igualmente um escrever por sofrer, um escrever para sobreviver tanto às ameaças quanto às imposições do golpe — com suas consequências —, aos calabouços, à solidão, às torturas e à morte. Esse escrever para combater e por sofrer se faz literalmente desde uma terrível experiência vivida ou a partir de um sofrimento infinito cujo padecimento se impõe, em resistência, ao pensamento e à criação”; e “Esta é uma antologia de poetas que os militares de então e seus apoiadores — bem como muitos de ainda hoje — chamariam de “terroristas”, “subversivos” e “bandidos vermelhos” que atentariam contra a segurança nacional, pessoas que, com suas palavras e ações, com suas atitudes e com seus versos, com suas ações em versos e com a poesia de suas ações, ousaram de diversos modos lutar contra a opressão, por um país mais justo, menos desigual e por algum tipo de liberdade maior do que a então permitida”.
O projeto gráfico de Fernando Saraiva conta com uma riquíssima pesquisa iconográfica realizada nos arquivos do Serviço Nacional de Informação (SNI), hoje disponíveis ao público. Criando uma narrativa própria com documentos imagéticos e textuais, Saraiva nos dá a ver modos como o governo apreendia – e porque os prendia – os poetas da antologia que a ele resistiram. Saraiva joga com as cores e traz todas as imagens em verde militar, representando o exército e a força autoritária. Já os textos estão em vermelho, representando o sangue dos que, lutando contra ditadura, foram mortos e torturados, bem como o comunismo que muitos defendiam.