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REVISTA BRASILEIRA #127: MEMÓRIAS



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A memória escolhe o que esquece de lembrar. Se bem me lembro, foi Milton Hatoum, nosso novo Acadêmico, quem me disse isso, evocando Jorge Luis Borges. Cito de memória, algo como “a musa, a deusa tutelar dos escritores”, na voz de Milton, talvez na televisão, não sei... A frase me trouxe à memória as infinitas versões desse mistério, que nos conta quem somos desde o ventre materno, gostos e desgostos, traumas, êxtases, subterfúgios. Que é bruma, um perfume, é poema cantado que trouxe Homero até nós. Personas amplificaram na arena de Epidauro as tragédias que ainda hoje ressoam na memória e na voz de Fernanda Montenegro. A nebulosa em que habita a família secreta de nossas obsessões.

Memória é biografia e história. É literatura, música, arte e arquitetura. É a experiência ancestral repetida ao longo do tempo, que maneja as florestas e faz a Terra se entender consigo mesma. Os mitos, cultos e lendas reeditam, milenares, um mesmo tema, o enigma da origem e do destino humano, e fazem as gentes se entenderem com algum Criador Incriado. Os tecidos com que cobrimos corpos e peles dissemelhantes, mantos de penas, a seda dos sáris ou o bordado dos djellabas são memória, e o que vier depois também será. A Cultura é a memória coletiva entranhada em cada um.

Aqui, em nossa Casa de Machado de Assis, somos confessos cultores da memória, um sério risco de que nos confundam com conservadores. Servidores de um projeto de imortalidade sonhado por um grupo de jovens no fim do século XIX que acreditaram que, quando se senta em uma cadeira que não nos pertence, cabe agradecer aos que ali se sentaram e a guardaram para nós, repetindo seus nomes, suas obras, evocando um gesto, uma palavra que lembre que existiram. A cada um que chega tiramos uma foto, que nunca é a mesma, porque sempre falta alguém que antes estava aqui. Lugar de memória, as tradições, os ritos, símbolos, que nesta Casa são a regra, para além da pompa que se lhe atribuem, são um mesmo fio condutor puxado por pessoas diversas, o fio dourado, ouro ou pailleté, que borda a cultura brasileira. E por isso aqui devem estar todas as culturas de que somos feitos.

Em tempos virtuais de eterno presente, mal vivido e deletado, o tema da Memória invade a Revista Brasileira, abre espaço ora à homenagem, ora à reflexão. O fotógrafo Bob Wolfenson se declara um ficcionista que conta uma história. Terá sido por afinidade que fotografou, ao longo da vida, tantos escritores e entre eles tantos acadêmicos? Fotografia é antes a memória do fotógrafo do que a de sua imagem.

Ignácio de Loyola Brandão comemora conosco seus 90 anos, contando uma história de sua infância, vivida com seu avô. Décadas mais tarde, já homem maduro, essa história lhe daria seu livro Os olhos cegos dos cavalos loucos, e à Revista Brasileira um belo texto evocativo desse tempo longínquo e tão presente.

O Memorial de Brumadinho, na arquitetura de Gustavo Penna, é a promessa ou juramento de que a tragédia de lama e escombros não será também soterrada pelo esquecimento.

Cristina Aragão foi buscar no Museu Vassouras o encontro das memórias das plantações de café com o canto dos escravizados que, libertos, trouxeram para as cidades a memória de sua dor. O jongo, de origem africana, veio com os povos banto arar a terra no Vale do Paraíba. Renasceu no asfalto e hoje anuncia, entrando na Avenida, a escola de samba Império Serrano. Quem nunca teve seu rosto fotografado falou com seus descentes pelo ritmo.

José Castello, para responder à pergunta “por que escreve?”, citou o “menino que fui e que agora mesmo se esconde em alguma brecha do que sou”. Escolhi para ilustrar este Editorial o verso de uma foto de meu bisavô tirada em Paris, no momento mesmo em que aqui fundávamos a Academia Brasileira de Letras, à imagem da Académie Française. O fotógrafo estampa uma elegante clientela feita de Academias, Ministérios, do Corpo Diplomático e do Institut de France, que ali iam buscar uma prova de que viveram. Guardo comigo a foto única desse homem que nem conheci, mas sem o qual eu não seria eu. Rainer Maria Rilke nos ensinou que o sangue de nossos ancestrais forma com o nosso essa coisa sem equivalente, que, aliás, não se repetirá. Memória.

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DADOS DO PRODUTO



título : Revista brasileira #127: memórias

isbn : 977010370700700127
idioma : Português
encadernação : Brochura
formato : 21 x 30
páginas : 256
ano de edição : 2026
edição :


ORGANIZADOR : Academia Brasileira de Letras

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