produto disponível
Por:
R$ 48,00
Em até 3x sem juros
Adicionar
à sacola
OBJETO
DE DESEJO
“Dos pequenos alto-falantes, só ouvíamos um ruído constante de estática, que parecia uma gravação malfeita de um dia chuvoso. Aquele barulho estranhamente uniforme e contínuo não combinava com os sons da natureza, sempre tão diversos. Ela não parecia se importar. Seu rádio ficava ligado o dia inteiro, mas não conseguíamos ouvir outra coisa porque já não havia mais nada para ser sintonizado. As redes, antenas e estruturas de transmissão haviam sido destruídas durante a catástrofe, assim como as cidades, os satélites, os carros. O ruído branco era um lembrete constante de que estávamos completamente sozinhas no mundo. Não havia mais nada.
Quando eu pensava na minha vida ali, eu me via igual aos cachorros que vinham revirar o lixo. Reduzida ao mínimo, me movimentando para continuar existindo, como se abrir os olhos de manhã fosse a coisa mais importante que havia. E talvez fosse.
Ela, no entanto, tinha o seu rádio. Enquanto eu não via mais sentido em quase nada e estava bastante satisfeita com isso, ela buscava um propósito naquela frequência que nos rodeava constantemente — aquela radiação de fundo que permeava todo o universo e ganhava corpo ao encontrar a antena do aparelho. Ouvia o ruído branco como quem escuta, atenta, uma mensagem em língua estrangeira que não é capaz de traduzir. Na vovó havia alguma coisa que eu não sentia — não sabia nem sentir. Era esperança.”
Leia mais…