SILVIANO SANTIAGO POR HÉLIO OITICICA
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A Pinakotheke Rio de Janeiro tem o prazer de convidar para o lançamento e para a exposição em torno de “xxxv – silvianosantiago por hélio oiticica” (Pinakotheke Editora, 2026), a publicação, mais de 50 anos depois, de um projeto de livro dado como perdido. No início dos anos 1970, quando morava em Nova York, Hélio Oiticicaconheceu e ficou grande amigo do poeta Silviano Santiago.Ao ler seu conjunto de poemas chamados de “xxxv”, a idade do poeta na época, 35 anos, Hélio decidiu criar o projeto da publicação. Camila Perlingeiro, diretora criativa da Pinakotheke, e à frente da Editora, observa: “Para ele, ‘fazer um livro’ estava longe de significar simplesmente acomodar textos dentro de uma forma já conhecida. Em uma carta a Carlos Vergara, escrita em novembro de 1973, chega a preferir a palavra ‘publicação’ a ‘livro’. O que o interessava era justamente poder inventar, romper a lógica sequencial e fazer com que a própria forma participasse da experiência da leitura”.
Camila Perlingeiro conta que “as cartas escritas por Hélio naquele período permitem acompanhar esse pensamento em movimento. Ele revê soluções, experimenta novas relações entre o texto e a fotografia, pensa a página como espaço e transforma três retratos de Silviano em diferentes ângulos na própria estrutura do trabalho”. Hélio Oiticica queria que Lygia Pape“assumisse a passagem daquela concepção para sua existência material”. Hélio procura a amiga “pela sua experiência gráfica, mas também pela sua capacidade de compreender criticamente o trabalho e encontrar soluções para ele. A publicação foi pensada como uma construção coletiva: os poemas de Silviano, o projeto de Hélio e a realização de Lygia eram como partes de uma mesma experiência”, assinala Camila Perlingeiro.
No entanto, “com o passar do tempo, ‘xxxv’ transformou-se num livro duplamente interrompido: nunca foi publicado e aparentemente o conjunto de folhas que permitia compreender o projeto concebido por Hélio não havia sobrevivido” diz a editora.
A pasta contendo o projeto permaneceu com Silviano durante anos. Já depois da morte de Hélio Oiticica, nas décadas de 1980 e 1990, quando viajava com frequência e passava longos períodos trabalhando em universidades fora do Brasil, Silviano emprestava seu apartamento no Rio de Janeiro ao irmão – o atorRodrigo Santiago (1943-1999) – durante temporadas de teatro. Ele se hospedava ali com outras pessoas. “Foi nesse período que Silviano percebeu que a pasta havia desaparecido. Procurou-a muitas vezes e acabou convencido de que alguém tinha levado”, conta Camila.
Mas, ao pesquisar sobre o poeta Silviano Santiago, o jornalista e escritor paulista João Pombo Barile– que acabou de ganhar o 3º Prêmio Jabuti Acadêmicopor “Presente do Acaso: um Ensaio Biográfico sobre Silviano Santiago" (Editora Autêntica, 2025), que já havia merecido o Prêmio APCA em janeiro deste ano – ouviu diversas vezes dele a história da pasta desaparecida e nunca se convenceu inteiramente de que ela tivesse sido roubada. Procurou pelo apartamento repetidas vezes. Até que, dois dias depois de uma dessas conversas, encontrou na área de serviço uma grande caixa de papelão, coberta por décadas de papéis, documentos, contas, formulários e fôlderes. “Debaixo de tudo estava uma pasta maior, cuidadosamente organizada”, diz a editora, entusiasmada. “Ao abri-la, encontrou Era o projeto de “XXXV”. Naquela mesma noite, Barile levou a pasta até a casa de Silviano e devolveu-lhe aquilo que ele julgava perdido por décadas”.
Foi a sobrevivência desse conjunto contendo um ensaio fotográfico em preto e branco de um jovem Silviano, textos, anotações e um pequeno cartão assinado por Hélio, que era o projeto de “xxxv”, que virá finalmente a público agora, pela Pinakotheke Editora.Isso se tornou possível porque, por indicação do poeta Felipe Fortuna, Silviano procurou Max Perlingeiro, diretor da Pinakotheke, e apresentou o projeto que Hélio havia concebido décadas antes.
Sobre o livro, Camila Perlingeiro também destaca: “O número 35 era a matéria da própria escrita”, relata a editora. “Nos poemas, palavras são desmontadas e recompostas, português, inglês e francês se misturam, nomes de cidades, países, personagens e acontecimentos viram substantivo e verbo. Em alguns momentos, o texto abandona a linearidade; mas isso apenas torna o escritor e sua obra ainda mais interessantes”.