SOLDADOS DA BORRACHA: TRABALHADORES ENTRE O...VARGAS
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OBJETO
DE DESEJO
Este livro de María Verónica Secreto conta a história extraordinária de homens e mulheres, a grande maioria nordestinos, que participaram da chamada “Batalha da Borracha” nos anos da Segunda Guerra Mundial. Mas a obra vai muito além de relatar um episódio curioso da campanha das “nações unidas”. A autora pesquisou a documentação da “batalha” – inclusive a propaganda de recrutamento visual e textual produzida pelo governo brasileiro e as cartas altamente comoventes das mulheres dos “soldados da borracha” – para analisar o lugar do trabalhador rural do Nordeste e da Amazônia nos discursos e na política do Estado Novo.
Foi em resposta à seca de 1932 que o governo Vargas introduziu a imagem do sertanejo como um bandeirante novo, destinado a povoar os “espaços vazios” da nação. A autora demonstra que o trabalhador rural, apesar de ser na maior parte excluído dos benefícios da legislação social getulista, fazia parte de uma visão de mobilização e colonização das “fronteiras” que procurava colocar “cada um no seu lugar”.
A “Batalha da Borracha”, porém, era menos uma conseqüência da política federal e mais um programa de emergência para lidar com o enorme déficit de borracha nos Estados Unidos no contexto da Segunda Guerra Mundial. A seca de 1942 coincidiu com o começo dessa campanha, criando uma “reserva” de braços disponíveis, principalmente no Ceará, embora os nordestinos hesitassem em virar “soldados da borracha” devido às denúncias de abusos cometidos pelos seringalistas na época do boom e às imagens de trabalho semi-escravizado associadas com os seringais da Amazônia. Por isso, o governo Vargas procurava criar uma contra-imagem de um novo tipo de seringueiro que ia chegar na floresta com um contrato na mão e direitos garantidos pelo governo — e até assistência monetária e social para sua mulher e seus filhos.
A interpretação tecida por Verónica Secreto sobre este aspecto da “Batalha da Borracha” é uma contribuição absolutamente preciosa à historiografia das relações trabalhistas e da questão da cidadania durante o Estado Novo. Segundo a autora, os representantes do governo federal sempre entenderam que os contratos teriam pouca força, porque não havia como garantir sua implementação nos remotos seringais no interior da região Norte. Mas, se o governo não valorizava a linguagem e o significado dos contratos, os “soldados” e suas mulheres, sim, insistiam nos direitos indicados nos papéis assinados. Este capítulo da história, baseado nas cartas redigidas pelas mulheres, primeiro, aos maridos ausentes e, segundo, ao próprio presidente Getúlio Vargas, revela o custo humano dessa “batalha” de uma maneira inesquecível. As mulheres “expuseram o duplo abandono em que se encontravam, sem maridos e sem Estado”. Mas, muito longe de tomar a atitude de vítimas enfraquecidas pela miséria, as mulheres reclamaram seus direitos, denunciando os trabalhos demasiado pesados que eram obrigadas a fazer e insistindo até no direito de fumar, contrariando o regime disciplinar da diretoria dos “núcleos” onde elas e suas famílias residiam.
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