UNIAO EUROPEIA E AMERICA LATINA...DISCURSO
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OBJETO
DE DESEJO
Desde 1999, Europa e América Latina/Caribe vêm tentando pôr em prática uma associação estratégica. O que essa associação signifi ca para as duas regiões? Ela difere de outras organizações estratégicas existentes hoje no mundo? Haveria nela algo de especial? Para responder a essas perguntas, que declinam o tema central deste livro, a autora se propõe a analisar o discurso das reuniões de cúpula realizadas entre a União Europeia e a América Latina/Caribe, à luz de uma perspectiva pós-estruturalista e pós-colonialista, de acordo com a qual mostra que as duas regiões, em vez de formas absolutas do ser, são um “efeito de diferenças”, ou seja, sempre se constituíram e ainda se constituem de forma recíproca.
A desconstrução realizada permite, além disso, mostrar como o discurso da associação estratégica acaba por negar os pressupostos que o sustentam. A crença de que a semelhança de valores entre as duas regiões criaria uma ordem internacional diferente daquela proposta pelos Estados Unidos se dilui quando se revelam discursos que continuam a representar o latino-americano como um “Outro” bárbaro da Europa, ainda que nem sempre se apresente com a mesma linguagem. Do século XVI ao XIX, o latino-americano foi representado como o canibal, o antropófago ou o selvagem. Hoje, ressurge na figura do migrante, principalmente daquele considerado ilegal.
O migrante latino-americano ilegal carrega, assim, a marca e a dimensão contestadora do bárbaro ou do não civilizado, mas sem corresponder a uma intencionalidade de contestação própria a um sujeito autônomo e centrado. Em vez disso, é a sua simples presença que interroga e critica as políticas migratórias restritivas atualmente em vigor na União Europeia.
Não por acaso, portanto, é na questão migratória que a cisão que insiste em se manifestar na associação estratégica entre União Europeia e América Latina/Caribe se torna mais evidente. A pretensão de que haveria história e valores comuns entre essas duas regiões, formando um espaço birregional, não se justifica a cada vez que a “Fortaleza Europa anti-imigrantes” não apenas trata o migrante latinoamericano como um “Outro” bárbaro, mas também reproduz o discurso colonialista de épocas supostamente ultrapassadas.
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